sexta-feira, 12 de março de 2010

Solitudine

A solidão, apesar de oferecer ao homem inumeráveis oportunidades de amadurecer e tornar-se um sujeito autônomo, é frequentemente receptáculo de valores negativos. É uma condição desagradável, por vezes assustadora, que se torna um inimigo de quem se deve fugir a qualquer custo. Tudo isto visto como o resultado de uma maneira de viver caótica agravada também pela herança bíblica, consequência das ações pecaminosas operadas pelo indivíduo: “então Adão e Eva são expulsos do paraíso e são condenados a uma vida de sofrimento e dor”. A dor da perda, da separação. A solidão, portanto, existe antes do homem. O óvulo, no momento da fecundação, está só. Assumido o patrimônio genético paterno, as reações físico-químicas do organismo separam o óvulo dos outros espermatozóides e isolam-no definitivamente da população celular materna. A própria fecundação é promotora de separação. A partir da décima quarta semana, o embrião, que se chamará feto, está perdido no oceano do ventre materno, está só. No futuro, o nascimento, o crescimento, o estado adulto re-evocam a solidão originária. Socialmente, então, reconhecemos com clareza a solidão. Pensemos em milhões de crianças abandonadas no mundo que vagueiam sozinhas. Os nossos velhos, quantos não são abandonados na cidade anônima? Quantas famílias, cada vez mais estranhos uns aos outros, vivem isoladas no horror da televisão, não são constrangidas a uma solidão forçada? O abandono e, portanto, a solidão, não poupa ninguém. O próprio Deus, sendo uno, está só.