terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando o forte fica fraco?

Platão dizia que todas as grandes tentativas são arriscadas e é verdadeiro o provérbio segundo o qual aquilo que vale a pena nunca é fácil. Se não é fácil, vale a pena sequer começar o que quer que seja? Muitos são os que dizem que vale a pena e poucos, pouquíssimos, são os que sabem que valeu a pena, pois somente uns raros conseguirão trilhar o árduo caminho entre o projeto à coisa. assim se dá desde sempre, conforme a história registrou para nossa lembrança. Escreveu Maquiavel: um príncipe não deve se basear no que ele observa em tempos de tranquilidade; escreveu Lucrécio: é preciso observar um homem em dúvida e situação de perigo; é na adversidade que se aprende como realmente ele é; pois é aí que a sua verdadeira voz aflora da profundeza do coração; a máscara se rompe e a verdade é o que está por trás. Finalmente, escreveu Bacon: a prosperidade melhor revela o vício, mas a adversidade melhor revela a virtude.

Quanto de pressão suporta um ser humano? Esta medida é proporcional à sua fé, à sua criatividade, à sua estrutura psicológica? Enfim, depende de ou pode ser atenuada por alguma coisa? É possível classificar grau de pressão por tipo, como pressão física, financeira, amorosa, social ou de outros tipos? É um ponto a se discutir por décadas, mas “pressão é pressão”, como diz um grupo de profissionais da saúde mental que tratam especificamente de Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Pode ser sequestro, abuso físico, moral, psicológico e tantos outros.

Ainda, ao reconhecermos que boa parte da carga de pressão vem de nós mesmos, há como, conscientemente, aliviar um pouco o sentimento de amargura? Se o desejo de conquistar e manter um lugar à frente dos que nos cercam nos cobra uma certa aptidão e treino, o mesmo se aplica ao que diz respeito ao desejo natural que cada um tem de pensar bem, ou pelo menos não tão mal, de si mesmo e de seus planos. O decoro íntimo e autoestima demandam, com freqüência, que não revelemos a nós mesmos tudo o que de fato pensamos e sentimos, nem mesmo quão grandes serão as eventuais dificuldades que venhamos a sentir. O indivíduo suprime do campo da experiência consciente a sua espantosa parcialidade por si próprio.

Veja o exemplo de Eugène-Henri-Paul Gauguin (1848-1903), um dos principais pintores do pós-impressionismo. Nem sempre ele foi pintor, mas em 1883, um colapso econômico o ajudou na decisão de tornar-se um artista em tempo integral. Gauguin recitava aos demais que, quando a mão direita estivesse hábil, pintaria com a esquerda; quando a esquerda ficassehábil, pintaria com os pés. Gostava de pressão? Por um tempo sim, calcado em sua inabalável crença de era um grande artista. Bastava a ele este (auto)reconhecimento a ponto de dizer: “É por causa dessa certeza que suportei tanta dor para prosseguir no caminho que escolhi. O que me preocupa não é tanto a pobreza mas os constantes entraves à minha arte, que não posso praticar como sinto e deveria fazer não fosse a pobreza que amarra minhas mãos.” A questão para ele era dinheiro, somente dinheiro. Pois bem, amigos financiaram sua ida ao Taiti em 1891 onde começou a criar e pintar, muito, pois o maior entrave estava vencido. Voltou a Paris para vender suas telas, se frustrou, voltou ao Taiti em 1895 e tentou em vão o suicídio em 1898. Grande artista que achava que era, e que hoje, post mortem, assim é reconhecido, não conseguiu suportar a pressão autoimposta.

Mas é justo dizer que certa pessoa, por seu gênio criativo e natureza empreendedora, se impõem pressão? Talvez, mas o coração humano possui tantos interstícios nos quais a vaidade se esconde, tantos orifícios nos quais a falsidade espreita, e está tão ornado de hipocrisia enganosa que ele com freqüência trapaceia a si próprio. E o que é criação e o que é enganação? Recomendo a leitura do livro Auto Engano, de Eduardo Gianetti.

A racionalidade é um instrumento inestimável quando se trata de evitar equívocos desnecessários. Mas nem tudo é racional é a humanidade precisa de líderes e precisa se sentir liderada. Quem quer ser líder? Quase todos. Quem pode ser líder? Alguns. Quem de fato suporta ser líder? Quase ninguém. De fato, nem só de racionalidade vive o homem. No caso do navio que naufraga (e.g. Costa Concordia, janeiro 2012) e cujo capitão é um dos primeiros a fugir (vada a bordo, cazzo), quem assume a liderança? Como se elege este(s) líder(es)? Sai um pouco de racionalidade e entra outra medida, a medida de valor pela sobrevivência, pela vida sua e dos outros. Muita vez, principalmente a dos outros. A idéia básica aqui é a de que o homem precisa, de alguma forma, proteger-se para preservar ou apreciar o valor de sua existência. Há uma resistência que também bloqueia, em alguma medida, o acesso que ele mesmo tem do que se passa em sua mente. E a busca pela sobrevivência nos dá força adicional para superar pressões.

Outro exemplo: a mobilização radical dos recursos de sobrevivência em situações de extrema adversidade ajuda a entender a quase total ausência de suicídios nos campos de concentração. Foi apenas após a libertação, quando os ex-prisioneiros puderam afinal respirar, olhar para trás e refletir sobre os horrores e humilhações que suportaram nos campos de concentração que muitos deles entraram em estado depressivo crônico. Foi só a partir daí que um grande número de sobreviventes sucumbiu ao suicídio. Era um momento crítico que coincidia com uma torrente de reflexão retrospectiva e depressão.

Posso assim entender porque somos dotados de instintos e porque os instintos não são racionais nem explicáveis nem domáveis. Horas há, e raras são estas horas (pero que las hay, las hay) em que não devemos pensar e sim agir. Nietzsche se perguntava quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito... Isso tornou-se para mim, cada vez mais, a autêntica medida de valor. Cada passo adiante, cada conquista no saber advém da coragem, da dureza contra si, da confiança em relação a si mesmo para superar as pressões. A alegria espontânea de viver e a atividade criativa dependem de uma disposição à entrega que a racionalidade solapa e não sacia. Não haverá riscos em pecar por excesso de moderação na vida prática? Apostar alto, lutar, não desistir, batalhar sem trégua, persistir na lide e ir além são condutas que demandam não só doses cavalares de motivação, mas toda sorte de façanhas, loopings e saltos acrobáticos do acreditar.



Finalizo com uma frase que teve e ainda tem grande impacto sobre mim: o diamante é o carvão que deu certo sob pressão.