segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Inteligência e Incerteza

Como estou numa fase de extrema ansiedade/expectativa, estou tentando parar de ficar pensando fixamente nas minhas coisas, pois logo vou queimar boa parte das células cinzentas.
 
Assim, comecei a ler um livro sobre os pensadores gregos e romanos, e estava lendo uma poesia de Virgílio (a décima), cujo nome é OMNIA VINCIT AMOR. Isto quer dizer "o amor vence tudo". E fiquei lendo as considerações que vários pensadores, filósofos e psicólogos já fizeram sobre esta frase. Não foram poucas as considerações e, mais interessante, também não foram poucas as linhas de raciocínio que foram construídas nas análises. Enfim, achei algo que poderia mesmo me entreter e me tirar da cabeça a ansiedade e angústia dos meus dias.
 
Enquanto eu tentava formar minha própria opinião, me lembrei de alguma coisa que eu já tinha visto, não sei onde nem quando. Remexe aqui, puxa de lá, lembrei que era um quadro que havia visto numa exposição em Florença (ou Firenze, também pode). Era um quadro que, à época, me chamou muito a atenção, mas só agora depois de décadas é que eu pude avaliar melhor o conteúdo dele. O nome do quadro, veja só: “O amor vence tudo”, de um pintor italiano, Agostino Carracci, que não é dos mais famosos mas tem a sua devida importância para quem curte arte.
 
O quadro é simples, mas chama a atenção por ter um cupido, segurando (ou lutando, detendo, separando) um sátiro (aquela criatura meio homem meio cabra), ajoelhado, que lança um olhar suplicante para duas mulheres nuas, no outro lado da tela. Na época me intrigou o fato de ver uma figura tão angelical, na verdade o próprio símbolo do amor, numa atitude quase que imperiosa, tirânica, poderosa.
 
Pois é, juntei a lembrança do conteúdo do quadro, que por sua vez tem o mesmo nome da décima poesia de Virgílio que estava lendo, mais as conflitantes considerações sobre a frase "o amor vence tudo" e passei horas, muitas, ao menos atingindo meu objetivo principal que era ficar absorto e não pensar em mim mesmo, ou mais especificamente, em meus possíveis problemas.
 
Concluí que, quando quer, para o nosso bem ou nosso mal, a força do amor vence. Mas não fiquei refletindo sobre o lado poético, romântico e tão conhecido do amor, mas me deixei guiar pelo conteúdo do quadro e pensei: quantas vezes, quando estamos amando, ou achando que estamos amando, não fazemos coisas que não queremos? A força do amor vence nossa própria vontade. Quantas vezes não perdemos o controle dos nossos pensamentos, enchendo a mente apenas com o que o 'amor' nos deixa? Quantas vezes somos escravizados, dobrados, detidos, humilhados, suplicamos, quando estamos sob o poder do amor?
 
Veja, não estou dizendo nada nem a favor nem contra, muito pelo contrário. Também não me comprometi a registrar ou solidificar nenhuma opinião própria, apenas me permiti olhar o outro lado da moeda, que toda moeda tem dois lados. E por falar em dois lados, por que duas mulheres? Será que o amor é tão espaçoso que não se contenta em amar só uma pessoa? Se não tivéssemos regras de conduta e moral, ou ao menos contas públicas a prestar, será que o amor seria, naturalmente, entre apenas duas pessoas? Por que só os humanos, e também as criaturas mitológicas com partes humanas, têm a necessidade de impor-se a amar apenas uma pessoa? Quando deparei com as duas mulheres no quadro, me deu uma idéia de ambigüidade, de plural, de instinto básico que todos os animais irracionais têm. De novo, nenhuma defesa da poligamia ou devassidão, apenas que, nas culturas onde isto é permitido, como haréns árabes e famílias de mórmons, todos aberta e teocraticamente polígamos, desde que possam sustentar a todas, enfim, sem defender ou atacar, apenas achei interessante refletir sobre esta questão se somos capazes de amar, naturalmente, sem limites morais, padrões sociais etc., mas sim de maneira genética, apenas uma só pessoa? Que eu saiba, no reino animal, poucos bichos são assim, por questões naturais e de instinto.
 
E nesta linha fantástica de viagem mental, assim como o nome da poesia me levou ao nome do quadro, o local da exposição (Florença) onde eu vi este quadro pela primeira vez, Florença me levou a outra linha de pensar, sobre a vaidade humana, ou simplesmente vaidade, pois só os humanos são assim, vaidosos. Até porque instinto é uma coisa, vaidade é outra, e os animais não têm vaidade. Nem o pavão, quando se abre todo, nem os rituais de acasalamento têm a intenção de demonstrar vaidade, e sim chamar a atenção do outro lado para a perpetuação da espécie. O homem não é assim. Vaidade parece que é parte do caráter. Até mesmo na Bíblia, Salomão escreve: "tudo é vaidade e um esforço para alcançar o vento". Mas, cá entre nós, quem não tem lá suas vaidades?
 
E o que tem Florença com vaidade? Bom, já ouviste falar em "fogueira das vaidades"? Pois Este termo - fogueira das vaidades - surgiu em Florença, por volta do ano 1500, quando um monge italiano, assumindo grande poder político, resolveu que tudo o que era arte (pintura, escultura, livros, enfeites etc., etc.), tudo o que servia como termo de comparação entre quem tinha (e exibia) bens materiais sobre quem não os tinha, enfim, que tudo isto deveria ser reunido numa praça pública em Florença, formando uma grande fogueira, alimentada por um fogo que consumiria todos os bens e obras de arte que fossem capturados, e queimariam até que o homem tivesse apenas o mínimo necessário para viver e contemplar. Este monge, o tal de Savonarola, cujos atos de extremismo ainda têm seus seguidores, acabou morrendo queimado em sua própria fogueira, literalmente. Colocaram fogo no cidadão, parecendo com o cara que inventou a guilhotina e morreu guilhotinado.
 
O amor tem a ver com vaidade? Tem a vaidade a razão de nos preparar para chegarmos ao amor? Eu mesmo não sei. Me peguei pensando nos meus dois casamentos e nas duas cartas que escrevi a cada uma. Para a primeira, escrevi algumas tantas linhas e lá inseri o "soneto do amor total", do Vinícius. Um amor eterno, dedicado, com a volúpia da minha idade, e este amor carnal acabou. Para a segunda, escrevi um trecho do discurso bíblico de Paulo, na sua primeira carta aos Coríntios, que, diferentemente do amor do Vinícius, e do meu pela minha primeira mulher, era descrito assim: "O amor é longânime e benigno. O amor não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, não se comporta indecentemente, não procura os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas." E conclui assim: "O amor nunca falha". Pois, de novo, no meu caso e no meio de tantos milhões ou bilhões de pessoas que já amaram, falhou. E eu coloco lado a lado as frases "o amor vence tudo" e "o amor nunca falha" e vejo que há uma tremenda equivalência entre a frase mundana e a frase bíblica. Seriam as duas metades da moeda, carne e espírito? Mas ambas falhando?
 
Não sei, mas foi um final de semana como há muito tempo não tinha. E daí qual foi a conclusão? A conclusão foi de que o objetivo foi cumprido: o final de semana passou e eu nem senti. Mas qual foi minha conclusão? Sei lá, eu não tinha compromisso com isto, ainda mais devendo tecer opiniões sobre o amor. Quem pode fazer isso? Romeu? Que se matou pela Julieta? Não pode, porque se matou. Quantos tipos de amor existem? Muitos. E em cada um de nós? Mais que um? Nenhum? Qual o tipo que mais predomina?
 
Ainda bem que chegou segunda-feira e ficará ainda mais fácil não pensar nas minhas chagas d´alma, sabendo que concordo com Kant:"Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar."