quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Temperamento Melancólico: Muito Além da Tristeza

                                 Temperamento Melancólico: Muito Além da Tristeza

    O temperamento melancólico, um dos quatro temperamentos hipocráticos, é frequentemente mal interpretado como uma disposição puramente triste e sombria. No entanto, essa visão é redutora. Ser melancólico não significa estar perpetuamente triste, mas sim possuir um conjunto de características que incluem profundidade, sensibilidade e uma rica vida interior.

    Indivíduos com temperamento melancólico são tipicamente analíticos, detalhistas e perfeccionistas. Possuem uma notável capacidade de concentração e um apreço pela ordem e pela beleza. São pessoas de grande lealdade e com um forte senso de dever, o que as torna amigos e profissionais de confiança.

    A sua natureza introspectiva leva a uma profunda reflexão sobre a vida, as emoções e as experiências. Essa inclinação para a análise os torna excelentes em atividades que exigem planejamento cuidadoso, atenção aos detalhes e uma compreensão profunda de sistemas complexos. Não é raro encontrar melancólicos em profissões como a pesquisa, a filosofia, as artes e a engenharia.

    É crucial, no entanto, distinguir o temperamento melancólico da emoção da tristeza ou do transtorno da depressão. Enquanto a tristeza é um estado emocional passageiro, e a depressão uma condição de saúde mental, o temperamento melancólico é um traço de personalidade inato. Uma pessoa melancólica pode sentir alegria, entusiasmo e contentamento como qualquer outra. A sua predisposição é para uma maior sensibilidade e uma abordagem mais ponderada e séria da vida.

    A tendência à melancolia pode, de fato, levar a uma maior propensão a sentimentos de tristeza quando confrontados com as imperfeições do mundo ou com as próprias falhas, devido ao seu idealismo e perfeccionismo. Contudo, essa mesma profundidade emocional lhes confere uma grande capacidade de empatia e uma apreciação aguçada das nuances da vida.

    Em resumo, as principais características do temperamento melancólico são:

 * Profundidade e Sensibilidade: Possuem uma rica vida interior e sentem as emoções de forma intensa.

 * Análise e Detalhismo: São observadores, metódicos e atentos aos pormenores.

 * Perfeccionismo e Idealismo: Buscam a excelência em tudo o que fazem e possuem elevados padrões.

 * Lealdade e Confiabilidade: São amigos e parceiros dedicados e fiéis.

 * Introspecção e Reflexão: Tendem a ser pensativos e a analisar as situações com cuidado antes de agir.

 * Apreço pela Beleza e pela Ordem: Encontram satisfação em ambientes e sistemas bem estruturados.

    Portanto, associar o temperamento melancólico unicamente à tristeza é um equívoco. Trata-se de uma personalidade complexa e profunda, capaz de grandes realizações e de uma percepção única e valiosa do mundo.

    As pessoas confundem melancolia com tristeza. Eu não sou triste e vivo a vida que eu gosto. Não se preocupe com isso. Não ache que sou infeliz. Muito pelo contrário, vivo a vida que eu sempre quis


                                                                                                    enviado por Thomás G.  Coelho














sexta-feira, 13 de junho de 2025

Inteligência, Solidão, Solitude


Por que tantas pessoas inteligentes se sentem desconectadas do mundo? O que faz com que mentes brilhantes prefiram a solidão ao convívio social? Seria arrogância, timidez ou algo mais profundo? Schopenhauer, um dos filósofos mais radicais do século XIX, tinha uma resposta simples e brutal. “A solidão é o destino de todos os espíritos excepcionais”. Segundo ele, quanto mais uma pessoa entende a natureza humana, mais difícil se torna conviver com ela.


Afinal, o que resta ao alguém que vê além da superfície, quando a maioria prefere viver de aparências, distrações e conversas vazias? Alan Turing decifrou códigos que mudaram os rumos da Segunda Guerra e foi recompensado com isolamento e perseguição. Friedrich Nietzsche, filósofo do incômodo, morreu só, incompreendido, depois de passar a vida desafiando as crenças da sociedade.

Essas figuras não eram simplesmente solitárias. Eram pessoas que pensavam em um nível que poucos conseguiam acompanhar. Mas será que essa distância é inevitável? Será que inteligência e solidão estão condenadas a andar juntas? Por quê a sociedade resiste àqueles que pensam demais e porque, para alguns, o silêncio da solidão é preferível ao barulho da superficialidade.


A maioria das pessoas imagina que inteligência é uma qualidade admirada, mas na prática, ela muitas vezes se transforma em um fardo. Psicólogos chamam isso de efeito espelho. Quando alguém muito inteligente entra em um ambiente, ele não traz apenas novas ideias.


Ele traz um espelho, um espelho que reflete as limitações, as inseguranças e os vazios das pessoas ao redor. E o que a maioria faz diante de um espelho que mostra verdades desconfortáveis? Vira o rosto, evita o reflexo, rejeita a fonte. Não é preciso ser arrogante ou agressivo para causar esse efeito. Basta pensar profundamente. 

Quando você encontra alguém muito forte fisicamente, o sentimento comum é de admiração. Com alguém rico, talvez surja inveja. Com alguém bonito, há comparação, mas não necessariamente rejeição.


Mas quando você se depara com alguém intelectualmente superior, a reação costuma ser diferente. Por quê? Porque força, beleza e riqueza são externas. Podem até provocar competição, mas raramente atingem o núcleo da identidade de alguém.


Agora, a inteligência toca no que há de mais sensível. Nossas ideias, nossas crenças, nosso senso de realidade, nossa percepção de quem somos. E é por isso que a presença de alguém inteligente muitas vezes é percebida, inconscientemente, como uma ameaça existencial.


Durante a maior parte da história humana, viver em grupo foi questão de sobrevivência. Estar integrado a uma tribo significava proteção, comida, apoio. Estar isolado era praticamente uma sentença de morte.

Por isso, nosso cérebro evoluiu para valorizar a aceitação social acima de quase tudo. Somos biologicamente programados para buscar pertencimento, seguir normas do grupo e evitar qualquer comportamento que possa nos tornar diferentes demais. É aqui que a inteligência profunda entra em conflito com essa programação ancestral.

A pessoa que questiona, que pensa de forma independente, que não aceita verdades fáceis, representa uma ameaça ao equilíbrio do grupo. Mesmo que não diga nada, sua existência rompe com o consenso confortável que mantém a coesão. Estudos em neurociência mostram que quando alguém se sente intelectualmente inferior diante de outra pessoa, o cérebro ativa a amígdala, a área associada ao medo e à defesa.


Ou seja, o simples ato de estar diante de alguém muito inteligente pode ser percebido inconscientemente como um perigo. Esse perigo, claro, não é físico, mas é simbólico. Ele ameaça o status social, a autoestima e a estabilidade psicológica de quem está ao redor.


Arthur Schopenhauer observou com lucidez esse processo. Para ele, a convivência cotidiana está recheada de futilidades e disfarces sociais. O pensador, ao contrário, sente repulsa por esse jogo superficial. Ele não consegue se engajar em conversas banais, não vê sentido em disputas de vaidade e se incomoda com a constante repetição do óbvio. Por isso, a solidão é uma consequência inevitável de enxergar com mais profundidade.

Como ele escreveu, quanto maior o intelecto, mais o homem se inclina à solidão. Segundo Schopenhauer, os verdadeiros intelectuais não se isolam por desprezar os outros, mas porque a convivência exige um nível de dissimulação que se torna insuportável para quem valoriza a verdade. 


Um dos maiores sofrimentos dos pensadores profundos não é estar só. É tentar se conectar e não conseguir, não encontrar eco, não ser compreendido. É a frustração de tentar ter uma conversa significativa e ser interrompido por clichês. É querer discutir ideias e receber de volta um olhar vazio.

É propor reflexão e ouvir. Para que complicar as coisas? Essa sensação de estar em outro plano de consciência, onde quase ninguém parece alcançar, pode gerar angústia, desânimo e até o desejo de se calar. Muitos se retiram não por desprezo, mas por exaustão.


E é aí que a solidão deixa de ser um refúgio e se torna um labirinto. A história está repleta de nomes que confirmam essa lógica cruel. Os que veem demais são muitas vezes ignorados, atacados ou destruídos.

Sócrates, por ensinar a pensar, foi condenado à morte. Galileu, por afirmar verdades científicas, foi silenciado pela igreja. Nietzsche, por desafiar a moral tradicional, foi chamado de louco. Turing, por ser brilhante e diferente, foi perseguido até a morte. Hipátia de Alexandria, por ensinar filosofia num mundo dominado por fanatismo, foi brutalmente assassinada. Essas histórias mostram um padrão.


Quando a mente de alguém vai longe demais, a sociedade tende a reagir com medo. E o medo se transforma em punição. No passado, o pensador era perseguido, censurado ou exilado. Hoje, ele é ignorado. A lógica das redes sociais privilegia o rápido, o superficial, o emocional. Quem tenta comunicar ideias complexas enfrenta um problema novo, a invisibilidade.


O algoritmo não favorece nuance, ele favorece ruído. Vídeos que ensinam, que refletem, que aprofundam, raramente viralizam. Já o conteúdo que provoca, simplifica ou reforça crenças populares ganha espaço, visualização e influência.


O pensador moderno continua marginalizado, não por dizer algo perigoso, mas por dizer algo que exige tempo e atenção para ser compreendido. A resposta pode estar em aceitar a solidão como espaço fértil. A solidão pode ser um laboratório de crescimento. 

Caminhe entre pessoas que vivem de certezas, enquanto você questiona até as perguntas. Esteja ciente de carregar nas costas o peso de enxergar o que ninguém mais quer ver. 


Você apenas chegou antes. E como disse Schopenhauer, talento atinge um alvo que ninguém mais consegue atingir. Gênio atinge um alvo que ninguém mais consegue ver. A inteligência é uma dádiva rara, mas também é um fardo.


Mas lembre-se, a história mostra que os que foram rejeitados ontem são reverenciados hoje. A dor de hoje pode ser o legado de amanhã. Se você se sente sozinho por pensar demais, saiba que você não está só.


Por que os seres mais lúcidos muitas vezes escorrem o silêncio? Por que os olhos que enxergam demais evitam o convívio? E o que há de tão insuportável na presença humana que faz com que as mentes mais profundas da história tenham se refugiado na solidão? 


Não estamos falando de antissocialidade, nem de arrogância. Estamos falando de algo muito mais sutil, e mais perigoso, um tipo de afastamento que começa com o incômodo e termina com o isolamento existencial. Arthur Schopenhauer não via a solidão como uma circunstância, ele a via como uma consequência inevitável da consciência elevada. 


Para ele, o mundo era um teatro de superficialidade, onde os sábios ou se afastavam, ou se afogavam. Mas será que o isolamento é um sintoma de genialidade ou apenas um sintoma de ferida? É possível ser livre e solitário ao mesmo tempo? Ou será que há um ponto onde a solidão deixa de ser refúgio e se torna veneno? Tesla, Newton, Dickinson, 


Nietzsche, todos eles gênios, todos eles nem tão sozinhos.

Seriam eles exemplos de liberdade interior, ou apenas espíritos exilados incapazes de se encaixar no mundo? Precisamos seguir os rastros da solidão até a sua origem filosófica, e entender a diferença entre quem foge do mundo e quem se encontra fora dele. Schopenhauer não acreditava que a solidão fosse uma escolha.


Para ele, ela era uma consequência inevitável da lucidez. Quanto mais profunda é a sua visão de mundo, mais estreito se torna o espaço onde você pode existir com verdade. Quanto mais você pensa, menos consegue conversar.


Quanto mais você sente, menos se encaixa. A genialidade, segundo ele, não é um dom social, é um exílio interno. Não porque o mundo exclui o pensador, mas porque o pensador começa a ver demais.

Demais para tolerar, demais para ignorar, demais para fingir que está tudo bem em meio a conversas banais e sorrisos coreografados. A inteligência elevada, segundo ele, cria uma barreira natural entre o indivíduo e a sociedade.


Porque as preocupações da maioria, status, aparência, conforto, aceitação, não fazem sentido para quem já atravessou o véu da ilusão. E nesse ponto começa o dilema. Não se trata de misantropia, mas de incapacidade funcional de encontrar ressonância.


Você entra num lugar cheio de vozes, mas se sente mais sozinho ali do que no escuro do seu quarto. E por mais que tente participar, se distrair, sorrir, a superficialidade te sufoca. 

A multidão é um mar no qual os espíritos livres se afogam, disse Nietzsche. Mas Schopenhauer não romantizava esse isolamento. 


Ele sabia que havia um preço. E esse preço era alto. Afastar-se da mediocridade preserva o pensamento, mas cobra da alma. Esse tipo de solidão não é paz. É um campo de batalha silencioso onde o que está em jogo é a sanidade.

É nesse ponto que surge a pergunta que nos atravessa como uma lâmina: esse isolamento é um privilégio ou uma condenação? Ou será que existe uma terceira via, algo entre o fardo e o refúgio?


Devemos entender a diferença entre solidão que adoece e solitude que liberta. Porque talvez o problema não seja estar sozinho. Mas o que você encontra quando se encontra! Nietzsche dizia que as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as próprias mentiras.


Para ele, e para tantos outros, o mundo social era um teatro de ilusões convenientes. Pessoas repetindo frases que nunca questionou. Defendendo ideias que nunca entendeu. E se agarrando a qualquer aparência que esconda o vazio. A genialidade, nesse contexto, não é uma virtude. É uma maldição.

Porque quanto mais alguém vê, mais percebe que quase ninguém quer enxergar. Schopenhauer reconhecia isso. E Nietzsche também.


O pensador não se isola por arrogância. Ele se isola porque enxerga o abismo entre o que é dito e o que é sentido. E isso o afasta, não das pessoas, mas da encenação.


O problema é que esse afastamento tem um efeito colateral. Quanto mais tempo alguém passa isolado pela própria profundidade, mais difícil se torna voltar. Começa como refúgio, vira exílio, depois se transforma em desencanto, apatia, desprezo silencioso pela humanidade.

E isso não é filosofia, é neurociência comportamental atual. A solidão extrema não é romântica, é letal. A psicologia moderna já mostrou que ela faz mais mal que o cigarro. A alma se intoxica quando não encontra nenhum espelho para refletir quem ela é. 


Einstein dizia que preferia o silêncio à companhia de pessoas sem profundidade. Tesla evitava qualquer evento social. Newton era conhecido por sua impaciência diante de conversas banais. Mas todos eles sofreram profundamente.


Não por serem fracos, mas porque ninguém é imune à falta de pertencimento. E essa é a parte que quase ninguém fala. O pensador não se afasta apenas por vontade própria, ele é afastado pela resistência que o mundo tem ao que o confronta.


Nietzsche chamava isso de ressentimento da mediocridade, o instinto da maioria de atacar o que não entende e desprezar o que a faz se sentir inferior. Esse tipo de hostilidade invisível expulsa os lúcidos para o canto da existência. E então surge um novo tipo de dor. A dor de ser rejeitado por ser verdadeiro, por ser profundo, por ser diferente. É preciso separar a solidão que adoece da solitude que fortalece. 


Você sabe a diferença? A verdade é que ficar sozinho não é o problema. O problema é quando a solidão vira cárcere e não caminho, quando o silêncio é grito preso e não respiração profunda. Existe um outro tipo de estar só, um que não adoece, que não afasta, que não corta vínculos com o mundo, mas os reconstrói de dentro para fora.

Esse tipo de solidão tem outro nome, solitude. Jung dizia que aquele que olha para fora sonha, mas aquele que olha para dentro desperta. A solitude não é isolamento, é mergulho, é quando o mundo se cala e você finalmente ouve a própria voz, é nesse espaço que o pensamento se organiza.


O Buda se afastou da sociedade não para fugir dela, mas para compreender aquilo que o mundo insiste em ignorar, o sofrimento à origem dele e o que nos prende a ele. Marco Aurélio escrevia em meio à guerra, mas seus textos nasceram do silêncio, da introspecção, do exílio interno voluntário, onde o homem se encontra não com o mundo, mas com a consciência. Essa é a diferença, a solidão nasce do choque, a solitude nasce da escolha, uma é a ausência, a outra a presença radical.


A solitude é o mesmo quarto, mas agora você está lá por decisão, não por rejeição, é aí que nasce a força, não a força de quem evita o mundo, mas de quem não depende dele para saber quem é, porque existe uma liberdade que só é possível na ausência do olhar alheio e um tipo de cura que só acontece quando ninguém está vendo.

Mas quando a solitude deixa de ser libertadora e vira isolamento disfarçado, como saber se você está crescendo ou apenas se escondendo? Quando a solitude vira solidão de novo, sem que você perceba, por que às vezes a mente mais brilhante do mundo também se engana com a própria escuridão?


Nem toda solitude é saudável, nem toda preferência pelo silêncio é sinal de força, nem todo isolamento é nobre, há momentos em que a gente diz que prefere ficar sozinho, mas o que está acontecendo de verdade é que ninguém mais conseguiu nos alcançar, nem com palavras, nem com afeto, nem com presença. A solitude pode começar como lucidez, mas se não for vigiada, ela escorrega e vira fuga, vira muro, vira um exílio emocional construído com tijolos de trauma.


Você começa se protegendo da ferida, mas sem perceber, passa a proteger a ferida de ser tocada, e aqui mora o auto engano mais sofisticado do isolamento, você começa a dizer que ninguém te entende, mas na verdade você é quem parou de se revelar, você diz que prefere estar só, mas no fundo você tem pavor de ser ferido de novo, e estar só é mais seguro do que ser visto com vulnerabilidade.


Essa é a diferença entre solitude e autodefesa psíquica, entre introspecção e trauma encapsulado, a solitude saudável te devolve a si mesmo, o isolamento doentio te esconde de si mesmo.

Aí surge a pergunta que talvez você nunca tenha feito com honestidade: você realmente escolheu estar só, ou só aprendeu a não depender de ninguém porque ninguém ficou? 


Temos que entender como viver no mundo, sem se perder nele, porque o isolamento total não é solução, mas a necessidade constante de aprovação também é um veneno e talvez haja uma saída no meio, e pode ser que ela não seja um lugar, mas um estado de consciência. 


Você não precisa sumir para se proteger, e não precisa se mostrar inteiro para ser aceito. Schopenhauer dizia que o gênio deveria manter um distanciamento filosófico, viver entre as pessoas, mas sem esperar nada delas, Marco Aurélio chamou isso de indiferença estratégica, pois não é desprezo, é preservação, é a arte de ver tudo, e reagir ao mínimo. Dê a si mesmo o presente de ser indiferente àquilo que está fora do seu controle.


Schopenhauer estava tentando dizer o tempo todo que a genialidade não está em se isolar, mas em não precisar da aceitação, para continuar sendo quem se é.




quarta-feira, 7 de maio de 2025

O Pingo Luis se foi.

7 de maio de 2025

Meu amigo, minha alegria, depois de 13 anos, se foi. Me deu o privilégio de ser muito amado por ele e, também, me fez privilegiado por poder amá-lo. Conhecido por quase todos como "Pingo Luis, o cachorro feliz", ele tentou me ensinar muitas coisas, algumas aparentemente fáceis, outras, para mim, quase impossíveis:

1- Sinta prazer nas pequenas coisas;

2- Ame incondicionalmente (esta, meu querido Pingo, não me acho capaz de te imitar);

3- Nunca pare de brincar;

4- Se o que você deseja está enterrado, cave até encontrar;

5- Seja leal, seja valente, perdoe rápido;

6- Coma com gosto e entusiasmo, mas para quando estiver satisfeito;

7- Evite morder quando um rosnado resolve.

Pois é, meu querido cachorro feliz, não tenho tua grandeza. De grande, ficou o vazio que as lágrimas preenchem ao me lembrar, o tempo todo, todo o tempo, de você.

Obrigado por tudo que me ensinou e pelo que tentou ensinar. Se eu aprender, de verdade, uma dessas coisas, posso dizer que você fez mais por mim do que eu por você. Descanse em paz, criatura angelical, um verdadeiro presente de Deus. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Pinga e Aguardante

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo.  Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.
Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou. A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado. Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.
Resultado: o 'azedo' do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam  constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome 'PINGA'.
Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de 'ÁGUA-ARDENTE'. Caindo em seus rostos escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.

(História contada no Museu do Homem do Nordeste).

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O Atual Momento Econômico e as Energias Envolvidas

Desnecessário descrever o momento atual. Forças econômicas, políticas, sociais, ideológicas, enfim, inúmeras forças. 

Gostaria de usar um conceito da física para fazer um paralelo aos sobrenomes das forças citadas e a essência das forças como as entendemos na física. Falemos sobre trabalho e energia, mas não sobre a retração do mercado de trabalho tampouco sobre o preço da energia elétrica. 

De um modo geral, a energia pode ser definida como capacidade de realizar trabalho. Levantamos todos os dias para trabalhar, sem perceber que o termo trabalho significa usar a energia que temos para realizar algum tipo de atividade. Em física não é diferente, o termo trabalho corresponde à taxa de transferência de energia quando queremos fazer ou transformar algo. 

Para este trabalho de transformação, invoco aqui os conceitos de energia cinética e potencial. Muito basicamente, a energia cinética é a energia que um corpo adquire quando está em movimento. A energia potencial  é a energia que fica armazenada, pronta para se manifestar quando exigida para realizar um trabalho de transformação. Conforme o corpo perde energia potencial ganha energia cinética ou vice-versa. Qualquer corpo que possuir velocidade terá energia cinética. Tudo é uma questão de velocidade.

Com energia, podemos realizar três tipos de trabalho:
1 – trabalho nulo:  fique como está e veja como fica.
2 – trabalho resistente: é o trabalho em que a força aplicada sempre possui sentido contrário ao deslocamento causado por ela, ou seja, trabalhemos para que tudo fique pior do que já está. O caos sempre interessa a alguns.
3 – trabalho motor: é aquele no qual a força aplicada sempre possui o mesmo sentido do deslocamento causado por ela, ou seja, força para a frente, resultado à frente.
E o que se conclui disto? Que desenvolvamos um trabalho motor (progressista) com energia cinética (velocidade à frente), fazendo a roda girar!, e não um trabalho nulo apenas com energia potencial, armazenada sem utilidade prática, pois este resultado já é conhecido. 

Será girando a roda que cada um poderá fazer sua própria parte, sem entregar seu futuro nas mãos de quem quer que seja, pois energia e capacidade de trabalho estão dentro de nós. Transformando energia potencial em cinética, vamos FAZER A RODA GIRAR !!

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Teimoso não! Inconformado.


Cientistas acreditam que é a busca pelas próprias fraquezas que faz os bons jogadores de xadrez, e não a prática do xadrez em si, pois eles estão sempre céticos. O investidor George Soros, ao fazer uma aposta financeira, fica procurando por instâncias que provariam que a teoria inicial estivesse errada. Isso talvez seja a verdadeira autoconfiança: a capacidade de olhar para o mundo sem a necessidade de encontrar sinais que afaguem o próprio ego, mas que demonstrem a solidez ou fragilidade da teoria em questão. É complicado combater as próprias teorias, porque depois que a mente é habitada por certas visões de mundo, você tenderá a considerar apenas as instâncias que provem que está certo. Paradoxalmente, você deve crer em suas intuições iniciais e ao mesmo tempo tentar demoli-las.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Inteligência e Incerteza

Como estou numa fase de extrema ansiedade/expectativa, estou tentando parar de ficar pensando fixamente nas minhas coisas, pois logo vou queimar boa parte das células cinzentas.
 
Assim, comecei a ler um livro sobre os pensadores gregos e romanos, e estava lendo uma poesia de Virgílio (a décima), cujo nome é OMNIA VINCIT AMOR. Isto quer dizer "o amor vence tudo". E fiquei lendo as considerações que vários pensadores, filósofos e psicólogos já fizeram sobre esta frase. Não foram poucas as considerações e, mais interessante, também não foram poucas as linhas de raciocínio que foram construídas nas análises. Enfim, achei algo que poderia mesmo me entreter e me tirar da cabeça a ansiedade e angústia dos meus dias.
 
Enquanto eu tentava formar minha própria opinião, me lembrei de alguma coisa que eu já tinha visto, não sei onde nem quando. Remexe aqui, puxa de lá, lembrei que era um quadro que havia visto numa exposição em Florença (ou Firenze, também pode). Era um quadro que, à época, me chamou muito a atenção, mas só agora depois de décadas é que eu pude avaliar melhor o conteúdo dele. O nome do quadro, veja só: “O amor vence tudo”, de um pintor italiano, Agostino Carracci, que não é dos mais famosos mas tem a sua devida importância para quem curte arte.
 
O quadro é simples, mas chama a atenção por ter um cupido, segurando (ou lutando, detendo, separando) um sátiro (aquela criatura meio homem meio cabra), ajoelhado, que lança um olhar suplicante para duas mulheres nuas, no outro lado da tela. Na época me intrigou o fato de ver uma figura tão angelical, na verdade o próprio símbolo do amor, numa atitude quase que imperiosa, tirânica, poderosa.
 
Pois é, juntei a lembrança do conteúdo do quadro, que por sua vez tem o mesmo nome da décima poesia de Virgílio que estava lendo, mais as conflitantes considerações sobre a frase "o amor vence tudo" e passei horas, muitas, ao menos atingindo meu objetivo principal que era ficar absorto e não pensar em mim mesmo, ou mais especificamente, em meus possíveis problemas.
 
Concluí que, quando quer, para o nosso bem ou nosso mal, a força do amor vence. Mas não fiquei refletindo sobre o lado poético, romântico e tão conhecido do amor, mas me deixei guiar pelo conteúdo do quadro e pensei: quantas vezes, quando estamos amando, ou achando que estamos amando, não fazemos coisas que não queremos? A força do amor vence nossa própria vontade. Quantas vezes não perdemos o controle dos nossos pensamentos, enchendo a mente apenas com o que o 'amor' nos deixa? Quantas vezes somos escravizados, dobrados, detidos, humilhados, suplicamos, quando estamos sob o poder do amor?
 
Veja, não estou dizendo nada nem a favor nem contra, muito pelo contrário. Também não me comprometi a registrar ou solidificar nenhuma opinião própria, apenas me permiti olhar o outro lado da moeda, que toda moeda tem dois lados. E por falar em dois lados, por que duas mulheres? Será que o amor é tão espaçoso que não se contenta em amar só uma pessoa? Se não tivéssemos regras de conduta e moral, ou ao menos contas públicas a prestar, será que o amor seria, naturalmente, entre apenas duas pessoas? Por que só os humanos, e também as criaturas mitológicas com partes humanas, têm a necessidade de impor-se a amar apenas uma pessoa? Quando deparei com as duas mulheres no quadro, me deu uma idéia de ambigüidade, de plural, de instinto básico que todos os animais irracionais têm. De novo, nenhuma defesa da poligamia ou devassidão, apenas que, nas culturas onde isto é permitido, como haréns árabes e famílias de mórmons, todos aberta e teocraticamente polígamos, desde que possam sustentar a todas, enfim, sem defender ou atacar, apenas achei interessante refletir sobre esta questão se somos capazes de amar, naturalmente, sem limites morais, padrões sociais etc., mas sim de maneira genética, apenas uma só pessoa? Que eu saiba, no reino animal, poucos bichos são assim, por questões naturais e de instinto.
 
E nesta linha fantástica de viagem mental, assim como o nome da poesia me levou ao nome do quadro, o local da exposição (Florença) onde eu vi este quadro pela primeira vez, Florença me levou a outra linha de pensar, sobre a vaidade humana, ou simplesmente vaidade, pois só os humanos são assim, vaidosos. Até porque instinto é uma coisa, vaidade é outra, e os animais não têm vaidade. Nem o pavão, quando se abre todo, nem os rituais de acasalamento têm a intenção de demonstrar vaidade, e sim chamar a atenção do outro lado para a perpetuação da espécie. O homem não é assim. Vaidade parece que é parte do caráter. Até mesmo na Bíblia, Salomão escreve: "tudo é vaidade e um esforço para alcançar o vento". Mas, cá entre nós, quem não tem lá suas vaidades?
 
E o que tem Florença com vaidade? Bom, já ouviste falar em "fogueira das vaidades"? Pois Este termo - fogueira das vaidades - surgiu em Florença, por volta do ano 1500, quando um monge italiano, assumindo grande poder político, resolveu que tudo o que era arte (pintura, escultura, livros, enfeites etc., etc.), tudo o que servia como termo de comparação entre quem tinha (e exibia) bens materiais sobre quem não os tinha, enfim, que tudo isto deveria ser reunido numa praça pública em Florença, formando uma grande fogueira, alimentada por um fogo que consumiria todos os bens e obras de arte que fossem capturados, e queimariam até que o homem tivesse apenas o mínimo necessário para viver e contemplar. Este monge, o tal de Savonarola, cujos atos de extremismo ainda têm seus seguidores, acabou morrendo queimado em sua própria fogueira, literalmente. Colocaram fogo no cidadão, parecendo com o cara que inventou a guilhotina e morreu guilhotinado.
 
O amor tem a ver com vaidade? Tem a vaidade a razão de nos preparar para chegarmos ao amor? Eu mesmo não sei. Me peguei pensando nos meus dois casamentos e nas duas cartas que escrevi a cada uma. Para a primeira, escrevi algumas tantas linhas e lá inseri o "soneto do amor total", do Vinícius. Um amor eterno, dedicado, com a volúpia da minha idade, e este amor carnal acabou. Para a segunda, escrevi um trecho do discurso bíblico de Paulo, na sua primeira carta aos Coríntios, que, diferentemente do amor do Vinícius, e do meu pela minha primeira mulher, era descrito assim: "O amor é longânime e benigno. O amor não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, não se comporta indecentemente, não procura os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas." E conclui assim: "O amor nunca falha". Pois, de novo, no meu caso e no meio de tantos milhões ou bilhões de pessoas que já amaram, falhou. E eu coloco lado a lado as frases "o amor vence tudo" e "o amor nunca falha" e vejo que há uma tremenda equivalência entre a frase mundana e a frase bíblica. Seriam as duas metades da moeda, carne e espírito? Mas ambas falhando?
 
Não sei, mas foi um final de semana como há muito tempo não tinha. E daí qual foi a conclusão? A conclusão foi de que o objetivo foi cumprido: o final de semana passou e eu nem senti. Mas qual foi minha conclusão? Sei lá, eu não tinha compromisso com isto, ainda mais devendo tecer opiniões sobre o amor. Quem pode fazer isso? Romeu? Que se matou pela Julieta? Não pode, porque se matou. Quantos tipos de amor existem? Muitos. E em cada um de nós? Mais que um? Nenhum? Qual o tipo que mais predomina?
 
Ainda bem que chegou segunda-feira e ficará ainda mais fácil não pensar nas minhas chagas d´alma, sabendo que concordo com Kant:"Avalia-se a inteligência de um indivíduo pela quantidade de incertezas que ele é capaz de suportar."

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quando o forte fica fraco?

Platão dizia que todas as grandes tentativas são arriscadas e é verdadeiro o provérbio segundo o qual aquilo que vale a pena nunca é fácil. Se não é fácil, vale a pena sequer começar o que quer que seja? Muitos são os que dizem que vale a pena e poucos, pouquíssimos, são os que sabem que valeu a pena, pois somente uns raros conseguirão trilhar o árduo caminho entre o projeto à coisa. assim se dá desde sempre, conforme a história registrou para nossa lembrança. Escreveu Maquiavel: um príncipe não deve se basear no que ele observa em tempos de tranquilidade; escreveu Lucrécio: é preciso observar um homem em dúvida e situação de perigo; é na adversidade que se aprende como realmente ele é; pois é aí que a sua verdadeira voz aflora da profundeza do coração; a máscara se rompe e a verdade é o que está por trás. Finalmente, escreveu Bacon: a prosperidade melhor revela o vício, mas a adversidade melhor revela a virtude.

Quanto de pressão suporta um ser humano? Esta medida é proporcional à sua fé, à sua criatividade, à sua estrutura psicológica? Enfim, depende de ou pode ser atenuada por alguma coisa? É possível classificar grau de pressão por tipo, como pressão física, financeira, amorosa, social ou de outros tipos? É um ponto a se discutir por décadas, mas “pressão é pressão”, como diz um grupo de profissionais da saúde mental que tratam especificamente de Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Pode ser sequestro, abuso físico, moral, psicológico e tantos outros.

Ainda, ao reconhecermos que boa parte da carga de pressão vem de nós mesmos, há como, conscientemente, aliviar um pouco o sentimento de amargura? Se o desejo de conquistar e manter um lugar à frente dos que nos cercam nos cobra uma certa aptidão e treino, o mesmo se aplica ao que diz respeito ao desejo natural que cada um tem de pensar bem, ou pelo menos não tão mal, de si mesmo e de seus planos. O decoro íntimo e autoestima demandam, com freqüência, que não revelemos a nós mesmos tudo o que de fato pensamos e sentimos, nem mesmo quão grandes serão as eventuais dificuldades que venhamos a sentir. O indivíduo suprime do campo da experiência consciente a sua espantosa parcialidade por si próprio.

Veja o exemplo de Eugène-Henri-Paul Gauguin (1848-1903), um dos principais pintores do pós-impressionismo. Nem sempre ele foi pintor, mas em 1883, um colapso econômico o ajudou na decisão de tornar-se um artista em tempo integral. Gauguin recitava aos demais que, quando a mão direita estivesse hábil, pintaria com a esquerda; quando a esquerda ficassehábil, pintaria com os pés. Gostava de pressão? Por um tempo sim, calcado em sua inabalável crença de era um grande artista. Bastava a ele este (auto)reconhecimento a ponto de dizer: “É por causa dessa certeza que suportei tanta dor para prosseguir no caminho que escolhi. O que me preocupa não é tanto a pobreza mas os constantes entraves à minha arte, que não posso praticar como sinto e deveria fazer não fosse a pobreza que amarra minhas mãos.” A questão para ele era dinheiro, somente dinheiro. Pois bem, amigos financiaram sua ida ao Taiti em 1891 onde começou a criar e pintar, muito, pois o maior entrave estava vencido. Voltou a Paris para vender suas telas, se frustrou, voltou ao Taiti em 1895 e tentou em vão o suicídio em 1898. Grande artista que achava que era, e que hoje, post mortem, assim é reconhecido, não conseguiu suportar a pressão autoimposta.

Mas é justo dizer que certa pessoa, por seu gênio criativo e natureza empreendedora, se impõem pressão? Talvez, mas o coração humano possui tantos interstícios nos quais a vaidade se esconde, tantos orifícios nos quais a falsidade espreita, e está tão ornado de hipocrisia enganosa que ele com freqüência trapaceia a si próprio. E o que é criação e o que é enganação? Recomendo a leitura do livro Auto Engano, de Eduardo Gianetti.

A racionalidade é um instrumento inestimável quando se trata de evitar equívocos desnecessários. Mas nem tudo é racional é a humanidade precisa de líderes e precisa se sentir liderada. Quem quer ser líder? Quase todos. Quem pode ser líder? Alguns. Quem de fato suporta ser líder? Quase ninguém. De fato, nem só de racionalidade vive o homem. No caso do navio que naufraga (e.g. Costa Concordia, janeiro 2012) e cujo capitão é um dos primeiros a fugir (vada a bordo, cazzo), quem assume a liderança? Como se elege este(s) líder(es)? Sai um pouco de racionalidade e entra outra medida, a medida de valor pela sobrevivência, pela vida sua e dos outros. Muita vez, principalmente a dos outros. A idéia básica aqui é a de que o homem precisa, de alguma forma, proteger-se para preservar ou apreciar o valor de sua existência. Há uma resistência que também bloqueia, em alguma medida, o acesso que ele mesmo tem do que se passa em sua mente. E a busca pela sobrevivência nos dá força adicional para superar pressões.

Outro exemplo: a mobilização radical dos recursos de sobrevivência em situações de extrema adversidade ajuda a entender a quase total ausência de suicídios nos campos de concentração. Foi apenas após a libertação, quando os ex-prisioneiros puderam afinal respirar, olhar para trás e refletir sobre os horrores e humilhações que suportaram nos campos de concentração que muitos deles entraram em estado depressivo crônico. Foi só a partir daí que um grande número de sobreviventes sucumbiu ao suicídio. Era um momento crítico que coincidia com uma torrente de reflexão retrospectiva e depressão.

Posso assim entender porque somos dotados de instintos e porque os instintos não são racionais nem explicáveis nem domáveis. Horas há, e raras são estas horas (pero que las hay, las hay) em que não devemos pensar e sim agir. Nietzsche se perguntava quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito... Isso tornou-se para mim, cada vez mais, a autêntica medida de valor. Cada passo adiante, cada conquista no saber advém da coragem, da dureza contra si, da confiança em relação a si mesmo para superar as pressões. A alegria espontânea de viver e a atividade criativa dependem de uma disposição à entrega que a racionalidade solapa e não sacia. Não haverá riscos em pecar por excesso de moderação na vida prática? Apostar alto, lutar, não desistir, batalhar sem trégua, persistir na lide e ir além são condutas que demandam não só doses cavalares de motivação, mas toda sorte de façanhas, loopings e saltos acrobáticos do acreditar.



Finalizo com uma frase que teve e ainda tem grande impacto sobre mim: o diamante é o carvão que deu certo sob pressão.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ajuda, Ajudador e Ajudado

Cícero, um dos mais brilhantes sábios da Roma Antiga, perguntava se “haveria algo mais belo do que ter alguém com quem se pudesse falar de todas as suas coisas como se falasse consigo mesmo?”. Como seria absurdamente libertador! Mas nem todos têm esta liberdade e os solitários, como eu, fazem isso com o espelho.

Uma vez eu li que carregamos as sementes tanto da felicidade como da tristeza em nossas mentes e que, quase sempre, nossa felicidade ou tristeza depende de nossa disposição e não das circunstâncias em que nos encontramos. Parece que basta querer e talvez seja assim. Mas não é sempre, é quase sempre, e aos que são designados para ajudar não cabe se preocupar em serem felizes, tristes ou ajudados. Apenas estão aqui para ajudar, mesmo que sejam, com o tempo, os que mais precisam de ajuda. Não nos pertencemos, apenas somos e nada esperamos pois, se esperamos, sofremos. Como é solitário estar rodeado de pessoas que precisam da nossa ajuda! Mas tocamos a vida com esperança de um dia encontrarmos o nosso redentor, quem nos ajudará e trocará de lugar conosco. Há tempos, como sendo daqueles que gostam de ajudar, ou precisam ajudar, eu sinto na pele como é uma prova de amor se oferecer pelos outros. O “ajudador” segue por caminhos ásperos e íngremes, debulha-se, tritura-se e amassa-se até ficar mais macio e, então, submete-se ao fogo para que se transforme em pão, para alimentar o corpo e o coração do próximo, enquanto os seus próprios seguem interminavelmente no ciclo debulhar-se, triturar-se e amassar-se, sempre para ser lançado no fogo. Será que é isto que quer dizer que é melhor dar do que receber? Parece que ajudar e ser ajudado são os dois lados de uma mesma moeda e que, se a lançarmos ao alto e olharmos quando ela cai, somente um lado pode prevalecer. Se for isto, então me sinto feliz por tirar a ventura maior de precisar ajudar do que ser ajudado.

“Sinto-me, sem sentir, no rigoroso fogo que me alenta / O mal que me consome é o mesmo que me sustenta / Ando sem me mover, falo calado! / Ainda assim, é melhor ajudar que ser ajudado.”

Mas quando a bateria dá sinais de que precisa de uma nova carga, como eu faço? Minha esperança de felicidade é um dia ter a certeza de ser amado apesar de ser como eu sou. Se não amado, pelo menos querido e poder continuar a ser o que sou. Pensei já ter encontrado isto, mas não era verdade. Já pensei em desistir e às vezes sinto que desisti sem pensar mais nisso. Talvez assim eu fique mais protegido e sofra menos.

Já perdi tanta coisa! Mas poucas me fizeram realmente falta e foi a perda destas poucas coisas que ainda doem, mas agora transformadas em cicatrizes que me fazem lembrar, ou não me deixam esquecer, que quando aparece alguém, vem junto, só que escondida, a dor que não se quer sentir. Um lado de mim vê as dores passadas e outro lado de mim vê que ainda pode ser possível.

Eu sei dizer “eu te amo” em vários idiomas... mas apenas sei dizer, embora não o diga. Não o digo porque não amo ou não amo porque não o digo? Basta amar para poder dizer ou basta poder dizer para amar? E assim, já se foram muitos e muitos anos de uma vida com tanta aventura, desventura, experiência, pujança e carência.... por isso escrevi sobre carência e abundância: “em tudo e em todas as circunstâncias aprendi o segredo tanto de estar suprido como de ter fome, tanto de ter abundância como de sofrer carência”.

E o ciclo continua, a cabeça se agita, o pulso pulsa e o coração palpita ... mas a certeza inexorável da dor sempre se faz presente.

Eu sei que “tenho tantos segredos dentro de mim”, alguns que nem eu mesmo sei. Eu não os compartilho, mas pode ser possível. E sendo possível, então com quem? Se não agora, então quando? São tantos segredos e tantas perguntas dentro de mim.