terça-feira, 13 de abril de 2010

CEO

Ser CEO é mesmo trivial. Só temos uma equação na cabeça, que recitamos cinco vezes ao dia, como o Salat, mas não necessariamente em direção a Meca. A equação é esta: Lucro = Receita – Despesa. Até dona de casa faz isso.

Se você consegue aumentar a lucratividade de tua empresa aumentando as receitas e diminuindo as despesas, você já pode ser uma CEO. Claro que existem questões de somenos importância, como cuidar dos interesses dos stockholders, stackholders, meio ambiente, questões sociais, éticas, tributárias, predatórias, enfim, coisas que qualquer um com um pouco de calma consegue lidar.

Tenho percebido hoje uma tendência interessante: a primeira cabeça a rolar tem sido a do CEO, até merecidamente. Lucas já disse que a todo aquele a quem muito foi dado, muito se reclamará dele; a quem encarregaram de muito, deste reclamarão mais do que o usual. CEO não tem muitos amigos (do tipo verdadeiro), não tem sindicato, não tem ONG, não tem privacidade. Não pode ser morno, pois deve ser ou frio ou quente, sob pena de ser expelido.

Se você não dá atenção aos teus colaboradores, é porque você abusa deles. Se você dá atenção demais, eles abusam de você. É uma vida de malabarista realmente interessante. O bom de ser CEO é que estes caras não têm medo, não têm dúvidas, não têm insegurança, não se deprimem. Ora, a depressão! A depressão temporária é condição de crescimento espiritual, é a hibernação da vida que se recolhe e se prepara para voltar renovada. CEO não se deprime nem sabe o que são sleeping peels. Mesmo que o corpo esteja enfermo, o importante é que seu espírito esteja são. Se o mundo lhes pesa nas costas, é por isso que inventaram a cadeira de espaldar alto. O CEO realizado não tem desejos de dentro, nem tem exigências de fora. Deve ser prestativo em se dar, sincero em falar, suave no conduzir e poderoso no agir. Tem que ser sereno. E deve ser de carne e osso.

Um CKO acredita que o curto prazo não conta, pois o capital intelectual se forma ao longo do tempo. Um CFO acredita que o longo prazo não importa, pois o que importa é ter receita para enfrentar as despesas. Um CEO acredita que o que é feito ou o que deixa-se de fazer a curto prazo, determina o longo prazo. Por isso que nossa liderança é baseada em imaginação, não dominação; em cooperação, não intimidação. É só ter otimismo para esperar o melhor, mas confiança para lidar com o pior. Isto é super fácil de fazer quando você é sozinho (CEO não está sozinho, por definição, é sozinho). Assim, afastamo-nos do ruído do mundo e do clamor de suas próprias preocupações. No silêncio podemos ouvir o sucesso do infinito. Basta pensar em grandes coisas enquanto faz as pequenas, e conduzir, ao mesmo tempo, os demais à direção certa. Como pensar em silêncio em meio ao caos? Demócrito, diz a lenda, teria cegado seus próprios olhos para pensar melhor.

Um CEO tem que ser teimoso como um xucro. Um artigo na revista The Economist coloca bem a questão: “a maior parte das empresas de sucesso tornou-se o que é porque em algum momento de sua conturbada evolução seus CEOs simplesmente recusaram-se a fechá-las e foram em frente, contra todas as previsões.”

E por que as pessoas invejam, idolatram ou odeiam os CEOs? Porque eles mentem que gostam do que fazem, pois na verdade já estão mais do viciados e condenados a ter adrenalina nas veias em doses excessivas. Eles mentem não para os outros, mas para si mesmos, pois o dom de mentir com sucesso para si mesmo pode ajudar a manter a chama da vida acesa nos momentos em que a sobrevivência está por um fio. Eu mesmo já estive por um fio. Mudei meus hábitos? Claro que sim, não quero quase morrer de novo. Já melhorei em duas ou três coisas, das duzentas que o médico recomendou.

O fato é que se todos os CEOs agissem como calculistas prudentes, e só fizessem novos investimentos quando estivessem de posse de tudo aquilo de que precisam para estar racionalmente seguros de que não sairão perdedores em suas apostas, o ânimo empreendedor definharia e a economia entraria em séria depressão. A certeza subjetiva, ou seja, sua e somente sua, move o grande realizador, ultrapassando o cálculo racional e fazendo-o esquecer aquilo que sabe mas não pode lembrar, assim como um homem saudável afasta a expectativa da morte.

At last, but not least, o CEO não pode ceder. Uma estranha força, mais forte que ele, ilumina, irradia e inflama sua mente. A certeza subjetiva (de novo a solidão) da vitória que o impele à frente, embora falsa para a maioria, fala mais alto que a probabilidade objetiva do fracasso. O CEO persiste. Depois morre, inexoravelmente.

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