quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Aposentadoria, filhos e escravidão

Outro dia estes eram os assuntos de uma mesma conversa: como é dura a vida do aposentado brasileiro e como as pessoas, mormente de baixa renda, têm tantos filhos. Foi inevitável fazer uma analogia com o período da escravidão. Ora, ter muitos filhos era o que os senhores de escravos esperavam de suas “propriedades”, as escravas. Assim como gado, quanto mais parissem, mais aumentava sua manada. Os nascidos serviriam como reposição da mão de obra no futuro, quando seus progenitores estivessem velhos, incapacitados ou mortos. A primeira lei abolicionista veio em 28 de setembro de 1871, promulgada pelo Visconde de Rio Branco. Àquela época a Câmara dos Deputados já fazia das suas: o projeto de lei obteve 65 votos favoráveis e 45 contrários. Entretanto, mesmo com o advento desta lei, o que acontecia com os filhos libertos de escravos? Permaneciam nas fazendas onde nasceram, pois nao tinham onde ir, e continuavam a trabalhar como escravos. Interessante notar a designação que se dava aos filhos libertos de escravos: ingênuos (no direito romano era o que ou quem já nasceu livre, do latim ingenùus 'nascido livre, digno de homem livre'). Seria ironia ou gozação escrachada? Assim hoje, a classe menos favorecida aina vê nos seus “ingênuos” a possibilidade do aumento de renda familiar. E dá-lhe filhos e mais filhos para pedir esmolas em semáforos. Evoluindo, outra lei aparece em 1885, quando o governo promulgou a Lei Saraiva-Cotegipe, também conhecida como lei dos sexagenários, nascida de um projeto do deputado baiano Rui Barbosa e libertou os escravos com mais de 60 anos, mediante compensações financeiras aos seus proprietários. Os escravos que estavam com idade entre 60 e 65 anos deveriam "prestar serviços por 3 anos aos seus senhores e após os 65 anos de idade seriam libertos". Nao é assim que ocorre com a maioria dos aposentados brasileiros? Mesmo recebendo os proventos da aposentadoria, ainda têm que continuar trabalhando para completar a renda mínima necessária. Que estranha coincidência a idade tanto para liberdade sexagenária como para aposentadoria. Nao sei se havia alforria por invalidez ou alforria proporcional, mas nao irei estranhar se houvesse. Mas ainda falta uma regra áurea, justa e racional para regular, definitivamente, a aposentadoria no Brasil, bem como, um esclarecedor controle de natalidade para quem o desejar.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sobre Avatar, Índios, Africanos e Aborígenes

Quem assistiu ao recente blockbuster AVATAR deve ter se impressionado com a estética, visual futurista e a complexidade dos efeitos especiais. De fato, é surpreendente. Ao final, o comentário mais ouvido segue na linha de como seria bom (ou mal) se pudéssemos viver realidades paralelas, dando vazão aos nossos sonhos e alteregos. Já se pode fazer isto no cyberspace do Second Life, um mundo também virtual em 3D onde se pode socializar com outros avatares.

Mas o que me surpreendeu mesmo foi ver que o ciclo da dominação destrutiva por parte do homem não cessa e se repete mesmo na ficção. Lembrem-se das conquistas européias no recém descoberto Novo Mundo, mais tarde chamado América (o continente todo, de norte a sul). Os índios foram cooptados, enganados, escravizados e por fim, dizimados. Os africanos participaram de uma das maiores vergonhas laborais empreendidas pelo homem, mas nem de longe foram os primeiros, pois o transformar vencidos em escravos vem desde o homem de Neanderthal, passando pelos hebreus no Egito e Babilônia e chegando, nos dias atuais, às fazendas do norte e nordeste brasileiro. Quem conhece a saga dos aborígines e a conquista da Austrália vê o mesmo enredo.

Tentei buscar alguma outra espécie do reino animal que escravize seu semelhante. Nada a ver com hierarquia, pois esta até os insetos possuem. Não encontrei nenhuma. Se alguém conhecer, por favor, me avise.

E me impressionei como as mentes estão turvas para a calamidade social, pois a assistência vibra com os ataques, defesas, máquinas bélicas fenomenais, mas nenhum sino soa para a questão da dominação destrutiva que o homem é capaz de empreender. Pano de fundo: sempre ele, o dinheiro. Que pena que esta prática não tenha ficado restrita ao passado. Se já assusta ver que ainda hoje a escravidão insiste em se camuflar, a ficção já a projeta como certa na exploração de novos mundos. Como escreveu Schopenhauer, parece que estamos fadados a viver "no campo de batalha de seres atormentados e agonizantes que continuam a existir apenas devorando-se uns aos outros".

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Derradeiro sacrifício

Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a terra. A partir do momento que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro-alvor e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens, empala-se no galho mais agudo e comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e se despede com um canto mais belo que o da cotovia e do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro para para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois, o melhor só se adquire às custas de um grande sofrimento. Pelo menos é o que diz a lenda. De toda sorte, persevere sempre e não abandone seus ideais. As soluções são possíveis na grande maioria das vezes, seja por uma questão de fé, de inteligência, de astúcia, de parceiros certos na hora certa, enfim, siga em frente enxergando seu objetivo de vitória. Henry Ford dizia que “há mais pessoas que desistem do que pessoas que fracassam”. Se desistir, você nem ganhou nem perdeu, apenas deixou de conseguir a vitória e, se ela não fosse possível, deixou de aprender muito. Porém, lembre-se: é longo o caminho do projeto à coisa. Nesta caminhada, exija muito de si e espere pouco dos outros, pois assim muitas decepções te serão poupadas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lidando com adversidades

O homem conserva o Muro das Lamentações, mas ninguém se deu ao trabalho de erigir o Muro das Soluções. Será que as lamentações são mais importantes do que a própria solução em si? Num momento de fragilidade e turbulências, não queremos que nada mais nos desestruture e tire nosso equilíbrio emocional. Ocorre que muitas vezes nós mesmos somos os geradores dos problemas e só com uma análise imparcial e objetiva dos fatos é que poderemos diagnosticar o tipo, as causas, as conseqüências e as providências a serem tomadas para a retomada da normalidade.

Nunca o jogo de cintura e a arte da boa diplomacia foi um requisito tão fundamental como nos dias de hoje. Como geralmente um problema envolve mais de uma pessoa, e em determinada altura dos acontecimentos nossa paciência e cerimônia tendem a desaparecer, a habilidade em nos relacionarmos com as pessoas que nos cercam é um fator determinante para o bom desenrolar das soluções desejadas ou o agravamento dos problemas já existentes.

Um endurecimento nas opiniões pode levar a um endurecimento dos problemas. Abra sua mente como se esta fosse um radar programado para captar as radiações existentes no universo. Registre até o que num primeiro momento lhe parecer inútil, desconexo ou supérfluo. Numa posterior análise dos registros é que deve acontecer a interpretação e atribuição de utilidade de cada informação. Não tente fazer a captação, o registro, a interpretação e valoração das informações de uma só vez, pois você não está em perfeita harmonia para tanto.

Um fator altamente prejudicial nas pessoas com problemas a resolver é o culto ao pessimismo. O medo de enfrentar o desconhecido, a adversidade e situações turbulentas faz com que a incerteza com relação ao resultado final nos leve sempre para o lado negativo dos resultados possíveis. Um final ruim passa a se materializar em nossas mentes, como se isso fosse inevitável, e então começamos a trabalhar nos argumentos que poderiam justificar nossas derrotas e mecanismos de adaptação para nos adequarmos à nova realidade desfavorável em que viveremos doravante.

Quando acordamos após um sonho positivo, sentimos um ânimo e incentivo que são como um bálsamo para nossas mentes cansadas e que não param de processar os elementos dos problemas pelos quais passamos. Sentimo-nos fortes e vemos que nem tudo está perdido enquanto resta uma esperança. Não é raro termos lampejos de ações progressistas que nos serão de extrema valia para o bom desenrolar dos fatos. Chegamos então a pensar : “Vale a pena continuar lutando!” . Nosso corpo parece mais ágil e disposto, nossa mente mais rápida e a velocidade de processamento de nosso raciocínio se multiplica por mil. O resultado final negativo parece cada vez mais improvável, possível porém improvável. O nosso lado pessimista insiste na possibilidade majoritária do fracasso, mas estamos sob influência sedativa dos bons fluidos. Entretanto, por quanto tempo dura este torpor positivista ? Não mais do que alguns minutos. Alguns minutos quando tentamos reagir e ainda temos forças para lutar.

Mas também existem aqueles que se recusam a se ministrar este paliativo psicológico, preferindo achar que o que é bom só acontece em sonhos, que a realidade é completamente diferente e verdadeiramente cruel. Fazem força não para conservar os bons fluidos, mas antes, para eliminá-los da mente como se isso atrapalhasse sua visão realista dos acontecimentos. O mesmo tempo que dedicamos a “pôr os pés no chão”, afastando as miragens dos sonhos bons, poderia ser melhor empregado para tentarmos reter os benefícios gerados pelas boas sensações de estímulo e encorajamento provenientes de nosso pensamento positivo e de nossa fé. Ainda que para muitos sejam apenas “bengalas psicológicas”, as sensações positivas efetivamente contribuem para um resultado melhor, assim como as sensações negativas efetivamente contribuem para um resultado pior. Torna-se então uma decisão até certo ponto penosa, pois sustentar o bem estar espiritual pode ser uma luta tão grande quanto resolver o problema em si, dada a carga naturalmente negativa que culturalmente se instalou em nós.

Instintivamente passamos a registrar primeiro o aspecto negativo, a saber, a multiplicação dos problemas e consequentemente o aumento da carga por sobre nossos ombros. Quem não consegue continuar o exercício de visualização para planejar o próximo passo já desiste por aí, deixando de ver que ao invés de ter um grande problema talvez pudesse ter dois problemas menores. Matematicamente falando, essa seria a conclusão lógica a se chegar. Napoleão Bonaparte já utilizava o lema “dividir para conquistar”. Para se extrair uma pedra de rim ou de vesícula, o procedimento é análogo.

Uma outra coisa que geralmente ocorre é a lamentação. Nem detectamos as causas de nossos problemas e já começamos a lamentar, como se a lamentação por si só fosse uma ferramenta útil para solução do que quer que seja. Ocorre que a lamentação já é uma característica intrínseca das pessoas, que fazem dela um anestésico para o espírito, bem como uma forma de marketing pessoal, vendo os ouvintes como potenciais compradores de suas atribulações, como se esses ouvintes pudessem se compadecer de nossa triste sina e pudessem compreender perfeitamente nosso fracasso, minimizando-o, ou pudesse enaltecer nossa vitória, maximizando-a. A lamentação não produz resultados práticos positivos. O tempo gasto nessa atividade pode ser melhor empregado em analisarmos os elementos negativos dos problemas e equacionarmos as reações que convergem para as soluções possíveis e desejadas.

Outra característica muito interessante de quem atravessa por dificuldades é a tendência do agrupamento, seguindo a máxima de que os semelhantes se atraem. Com o intuito de formarem uma sinergia, angariarem força e coragem, esse grupo mormente divide problemas e angústias, geram mais pessimismo, tentam confortarem-se e se afastam cada vez mais do objetivo construtivo inicial. E passam a ser elementos meramente contemplativos, aceitando e absorvendo os problemas como uma imposição do sistema, minando suas forças para a reversão dos fatos. Alguns grupos não raro assumem identidade própria e marcam época, como muitos movimentos de contestação e rebeldia, algumas procedentes e outras até mesmo oriundas do ócio. Cooptam pessoas que são vítimas das mesmas opressões, sofrem dos mesmos males ou simplesmente se agradam do modo como esses grupos vivem e manifestam suas reivindicações e seus ideais. Organizados e conduzidos por pessoas com alta capacidade de liderança, com poder de ditar regras e costumes, esses grupos criam identidade própria que muitas vezes extrapolam sua proposta inicial, que era agregar um número de pessoas com as mesmas aflições e caminharem para uma solução positiva comum. Viram referências históricas, musicais e tema de acaloradas discussões, onde se aborda o comportamento dos elementos do grupo e não se aborda o principal: os problemas geradores de determinada associação.

Se para alguns o agrupamento de pessoas é uma atitude discutível quanto à sua eficiência, existem também aqueles que preferem se isolar, pois acham que sua dor é algo muito particular, que não interessa a ninguém, que a solução está dentro de si próprio ou exclusivamente só ao seu alcance. Ao mesmo tempo que imagina-se livre das influências negativas e palpites infelizes, resguardado daqueles que não sentem suas dores e dizem que a vida é assim mesmo, que o melhor remédio é ter calma e outros tantos chavões, esquecem-se que também se distanciam das experiências semelhantes ao problema que enfrenta, dos resultados infrutíferos para não cometer os mesmos erros e das soluções sensatas e eficientes, para com elas aprender e refletir melhor nos passos que terá que dar.

Produtivo será se encararmos a vida como um jogo de xadrez. O objetivo é vencer, usando os elementos que estão à nossa disposição, guiados sempre pela clareza de raciocínio. O inimigo a vencer está lá, do outro lado, com o mesmo objetivo. Contamos com nossa força e o inimigo com nossa fraqueza. Cada problema ou solução deve ser encarado como um lance, bem ou mal dado, que com certeza terá reflexos. O mundo não está nem a favor nem contra cada um de nós. Simplesmente nós é que estamos no mundo. Para jogar. Para Vencer.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Carência e Abundância

Não é que eu esteja falando com respeito a ter carência, pois aprendi a ser auto-suficiente em qualquer circunstância em que esteja. Eu sei viver reduzido em provisões, sei, deveras, viver em abundância. Em tudo e em todas as circunstâncias aprendi o segredo tanto de estar suprido como de ter fome, tanto de ter abundância como de sofrer carência. Para todas as coisas tenho força em virtude da minha fé naquele que me confere poder.

Os Bons Capitães

Outro dia, lendo e relendo alguns textos, me peguei em reflexões interessantes! Como nos comportamos ao longo de nossas existências, de nossas histórias de vida? Quero dividir com meus amigos e com aqueles que fizeram parte da minha jornada até aqui, esta síntese das leituras mais marcantes neste ano. Desejo a todos saúde, sucesso e paz. Com muito amor, claro, “pois sem amor, nada seríamos”.

Chamei esta síntese de “Os bons capitães”, que é o que eu gostaria de ser, e me empenharei cada vez mais em chegar a sê-lo, enquanto tiver tempo pra isso, pois sei que estou longe, muito longe, deste nobre alvo.

Se nossa existência for comparada a um navio, podemos refletir do seguinte modo: nossa história é um navio cargueiro vazio, onde o único tripulante é o capitão do navio, ou seja, cada um de nós. E cada porto pelo qual iremos passar, ou atracar, será um palco para que nossas vidas sejam alteradas, para melhor ou para pior, dependendo de tantas variáveis que seria impossível relacionar enquanto estamos ainda no ponto de partida.

Podemos imaginar que cada novo porto seria um acontecimento novo. E como o número de portos é finito, vez por outra passaremos pelos mesmos portos, querendo ou não, portos que nos deixaram felizes e nos deixarão mais felizes ou tristes, e vice-versa, mostrando como o clima do momento, uma das tantas variáveis aleatórias, pode influir no andar dos acontecimentos.

Nos portos, nosso navio, nossa vida, será carregado com contêineres fechados de carga, com as seguintes possibilidades: contêineres de alegria, de tristeza, de mistério, de medos, de dúvidas, de irresponsabilidade, de razão, de amor, podendo estar cheios, pela metade ou vazios. Só iremos descobrir se nos forem positivos ou negativos quando atracarmos no próximo porto. Checar o interior de cada um deles durante o curso da viagem é completamente inútil.

Entendendo os portos e os contêineres, começamos a navegar, a mapear nossos caminhos, ajustando as rotas de tempos em tempos, sempre procurando os melhores cursos, mas sabendo que para tanto, algumas vezes, teremos que passar por turbulências e maremotos. Os bons capitães aprendem também, e talvez mais, nos tempos difíceis e agitados, onde fazem crescer a habilidade de conduzir seus navios em mares agitados.

Além de procurarmos as melhores rotas, também teremos a tendência de procurar os melhores portos, esquecendo-nos que às vezes as melhores cargas não estão lá, mas talvez nos piores e mais distantes portos. Justamente os que procuramos evitar, talvez por preconceito, por preguiça ou por nos deixarmos envolver pelo “canto da sereia”, aquela música que momentaneamente parece maravilhosa e nos puxa para o fundo do oceano. Nosso navio vai a pique!

As cargas variam de acordo com o perfil do capitão: alguns navios são completamente carregados de tristezas, outros só de alegria, como se ser feliz o tempo todo fosse realmente o melhor para cada um de nós. Os capitães mais sábios terão sua carga mista, de bons e maus momentos, alegres e tristes, para que possam comparar, crescer, exercitar, acautelar-se, prever, enfim, tudo o que significa avançar para conquistar ou retroceder para se defender.

Os bons capitães aprendem que há 4 tipos de carga que requerem cuidados especiais, pois são coisas que não se recuperam: a pedra, depois de atirada; a palavra, depois de proferida; a ocasião, depois de perdida e o tempo, depois de passado.

Aprendem também a não acreditar em tudo que ouvem, a não gastarem tudo o que têm e a não dormirem o quanto gostariam. Quando se desentendem, lutam limpo, sem golpes baixos. Quando perdem, pelo menos não perdem a lição, pois têm respeito por si mesmos, respeito pelos outros e responsabilidade pelos seus atos. Não deixam uma pequena disputa afetar uma grande amizade. E, quando notam que cometeram enganos, tomam providências para corrigi-los.

Sabem que a carga mais preciosa é o amor. Os bons capitães acreditam no amor à primeira vista, amam profundamente e com paixão, sabendo que podem ferir-se, mas que é o único meio de viver uma vida completa. Sabem que grandes amores e grandes realizações, assim como grandes travessias, envolvem grandes riscos.

Necessariamente, os capitães devem passar algum tempo sozinhos, para refletir.

Podem refletir, por exemplo, sobre o porquê o mar é tão grande, tão imenso, tão poderoso. Verão que o mar teve a humildade de colocar-se alguns centímetros abaixo de todos os rios. Sabendo receber, tornou-se grande. Se estivesse alguns centímetros acima dos rios, seria uma ilha, e não o mar. Refletindo sobre o mar, percebe que é impossível ganhar sem saber perder, andar sem saber cair, acertar sem saber errar e viver sem saber morrer.

Além de refletirem sobre o mar, os portos e as cargas, podem refletir quanto aos passageiros. Percebem que os passageiros, as pessoas que embarcam em seus navios, embarcam por uma razão, uma estação ou uma vida inteira. Depois de perceberem o motivo, saberão o que fazer com cada passageiro.

Quando alguém embarca por uma razão, geralmente é para suprir alguma necessidade que demonstramos no momento. São pessoas que vêm para auxiliar em uma dificuldade, fornecer apoio e orientação, ajudar física, emocional ou espiritualmente. Elas embarcam pela razão de que precisamos que estejam ao nosso lado. E, assim como embarcaram, desembarcam, sem nenhuma atitude errada ou justificativa racional. Desembarcam porque morrem, porque simplesmente se vão ou porque, quando se vão, nos forçam a tomar uma posição e crescer. O que os bons capitães devem refletir é que suas necessidades foram atendidas, agora é tempo de continuar a navegar.

Quando alguém embarca por uma estação, é porque chegou o momento de dividir, de crescer e aprender. São passageiros que podem trazer paz, alegria, ensinar algo que nunca se fez, enfim, trazer um grande prazer, mas somente por uma estação. Isso é ruim? De modo algum, pois as estações são cíclicas, se repetem, e estas experiências voltarão a cruzar nossos caminhos.

Quando alguém embarca por uma vida inteira, já é tempo dos capitães terem aprendido, depois de tantas travessias e perigos, que devem aceitar somente os passageiros com os quais se goste de conversar. À medida que se envelhece, o talento para conversar se tornará tão importante quanto todos os outros talentos. Se é uma viagem para a vida inteira, não devem julgar ninguém pelos seus parentes.

Os bons capitães podem até falar devagar, mas pensam depressa. Trabalham como se não precisassem de dinheiro, amam como se nunca tivessem sido magoados e dançam como se ninguém estivesse observando. Sabem que o maior risco da vida é não fazer nada.

E revêem a vida de alguns passageiros ilustres e aprendem que não devem, nunca, desistir:
- Albert Einstein não sabia falar até os 4 anos de idade e só aprendeu a ler aos 7 anos. Sua professora o qualificou como “mentalmente lerdo, não-sociável e sempre perdido em devaneios tolos”. Foi expulso da escola e não foi admitido na Escola Politécnica de Zurique;
- Quando Alexander Graham Bell inventou o telefone, em 1876, não tocou o coração de financiadores com o aparelho. O Presidente Rutheford Hayes disse: "É uma invenção extraordinária, mas quem vai querer usar isso ?";
- Thomas Edison fez duas mil experiências para conseguir inventar a lâmpada. Um jovem repórter perguntou o que ele achava de tantos fracassos. Edison respondeu : "Não fracassei nenhuma vez. Inventei a lâmpada. Acontece que foi um processo de 2.000 passos.";
- Aos 46 anos, após anos de perda progressiva da audição, o compositor alemão Ludwig van Beethoven ficou completamente surdo. No entanto, compôs boa parte de sua obra, incluindo três sinfonias, em seus últimos anos;
- O superstar do basquete, Michael Jordan, foi cortado do time de basquete da escola.

Os bons capitães refletem sempre. Se se cansam de refletir olhando para o mar, podem refletir olhando para o ar. Vêem os gansos e lembram-se de que ao voar em formação de “v”, o bando inteiro aumenta em 71% o alcance do vôo com relação ao de um pássaro voando sozinho. E aprendem que compartilhar da mesma direção e sentido do grupo, permite chegar mais rápido e facilmente ao destino, porque ajudando-nos uns aos outros os resultados são melhores. Vêem que, quando um ganso sai da formação, sente a resistência do ar e a dificuldade de voar sozinho, então, rapidamente retorna à formação, para aproveitar o poder da elevação dos que estão à sua frente. E aprendem que permanecendo em sintonia e unidos junto àqueles que se dirigem conosco na mesma direção, o esforço será menor, será mais fácil e agradável alcançar as metas e estaremos dispostos a aceitar e oferecer ajuda. Vêem que, quando o ganso líder se cansa, se muda para o final da formação, enquanto outro assume a dianteira. E aprendem a compartilhar a liderança, a respeitarem-se mutuamente o tempo todo, a dividir os problemas e os trabalhos mais difíceis, reunir habilidades e capacidades, combinar dons, talentos e recursos. Vêem que, quando um ganso adoece, fica ferido ou está cansado e deve sair da formação, outros saem da formação e o acompanham para ajudá-lo e protegê-lo, permanecem com ele até que morra ou seja capaz de voar novamente; e então alcançam seu bando, ou se integram em outra formação. E aprendem que, estando unidos, um ao lado do outro, apesar das diferenças, tanto nos momentos difíceis, como nas horas de trabalho, a travessia será mais simples e mais prazerosa!

Depois de tantas reflexões e de tanto navegar, vem o tempo das descobertas. Os bons capitães, aqueles que aprenderam ao longo de suas tantas travessias, descobrem que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser e que o tempo é curto. Aprendem que não importa aonde já chegaram, mas para onde estão indo, mas se não se sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprendem que, ou eles controlam seus atos ou os atos os controlarão. Descobrem que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências.

Façam o que tiverem que fazer, mas façam buscando sempre serem os capitães de suas vidas e, de preferência, seja parte do time dos “bons capitães”.
Um abraço a todos,
Alexandre Maiali
Dezembro - 2005