quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lidando com adversidades

O homem conserva o Muro das Lamentações, mas ninguém se deu ao trabalho de erigir o Muro das Soluções. Será que as lamentações são mais importantes do que a própria solução em si? Num momento de fragilidade e turbulências, não queremos que nada mais nos desestruture e tire nosso equilíbrio emocional. Ocorre que muitas vezes nós mesmos somos os geradores dos problemas e só com uma análise imparcial e objetiva dos fatos é que poderemos diagnosticar o tipo, as causas, as conseqüências e as providências a serem tomadas para a retomada da normalidade.

Nunca o jogo de cintura e a arte da boa diplomacia foi um requisito tão fundamental como nos dias de hoje. Como geralmente um problema envolve mais de uma pessoa, e em determinada altura dos acontecimentos nossa paciência e cerimônia tendem a desaparecer, a habilidade em nos relacionarmos com as pessoas que nos cercam é um fator determinante para o bom desenrolar das soluções desejadas ou o agravamento dos problemas já existentes.

Um endurecimento nas opiniões pode levar a um endurecimento dos problemas. Abra sua mente como se esta fosse um radar programado para captar as radiações existentes no universo. Registre até o que num primeiro momento lhe parecer inútil, desconexo ou supérfluo. Numa posterior análise dos registros é que deve acontecer a interpretação e atribuição de utilidade de cada informação. Não tente fazer a captação, o registro, a interpretação e valoração das informações de uma só vez, pois você não está em perfeita harmonia para tanto.

Um fator altamente prejudicial nas pessoas com problemas a resolver é o culto ao pessimismo. O medo de enfrentar o desconhecido, a adversidade e situações turbulentas faz com que a incerteza com relação ao resultado final nos leve sempre para o lado negativo dos resultados possíveis. Um final ruim passa a se materializar em nossas mentes, como se isso fosse inevitável, e então começamos a trabalhar nos argumentos que poderiam justificar nossas derrotas e mecanismos de adaptação para nos adequarmos à nova realidade desfavorável em que viveremos doravante.

Quando acordamos após um sonho positivo, sentimos um ânimo e incentivo que são como um bálsamo para nossas mentes cansadas e que não param de processar os elementos dos problemas pelos quais passamos. Sentimo-nos fortes e vemos que nem tudo está perdido enquanto resta uma esperança. Não é raro termos lampejos de ações progressistas que nos serão de extrema valia para o bom desenrolar dos fatos. Chegamos então a pensar : “Vale a pena continuar lutando!” . Nosso corpo parece mais ágil e disposto, nossa mente mais rápida e a velocidade de processamento de nosso raciocínio se multiplica por mil. O resultado final negativo parece cada vez mais improvável, possível porém improvável. O nosso lado pessimista insiste na possibilidade majoritária do fracasso, mas estamos sob influência sedativa dos bons fluidos. Entretanto, por quanto tempo dura este torpor positivista ? Não mais do que alguns minutos. Alguns minutos quando tentamos reagir e ainda temos forças para lutar.

Mas também existem aqueles que se recusam a se ministrar este paliativo psicológico, preferindo achar que o que é bom só acontece em sonhos, que a realidade é completamente diferente e verdadeiramente cruel. Fazem força não para conservar os bons fluidos, mas antes, para eliminá-los da mente como se isso atrapalhasse sua visão realista dos acontecimentos. O mesmo tempo que dedicamos a “pôr os pés no chão”, afastando as miragens dos sonhos bons, poderia ser melhor empregado para tentarmos reter os benefícios gerados pelas boas sensações de estímulo e encorajamento provenientes de nosso pensamento positivo e de nossa fé. Ainda que para muitos sejam apenas “bengalas psicológicas”, as sensações positivas efetivamente contribuem para um resultado melhor, assim como as sensações negativas efetivamente contribuem para um resultado pior. Torna-se então uma decisão até certo ponto penosa, pois sustentar o bem estar espiritual pode ser uma luta tão grande quanto resolver o problema em si, dada a carga naturalmente negativa que culturalmente se instalou em nós.

Instintivamente passamos a registrar primeiro o aspecto negativo, a saber, a multiplicação dos problemas e consequentemente o aumento da carga por sobre nossos ombros. Quem não consegue continuar o exercício de visualização para planejar o próximo passo já desiste por aí, deixando de ver que ao invés de ter um grande problema talvez pudesse ter dois problemas menores. Matematicamente falando, essa seria a conclusão lógica a se chegar. Napoleão Bonaparte já utilizava o lema “dividir para conquistar”. Para se extrair uma pedra de rim ou de vesícula, o procedimento é análogo.

Uma outra coisa que geralmente ocorre é a lamentação. Nem detectamos as causas de nossos problemas e já começamos a lamentar, como se a lamentação por si só fosse uma ferramenta útil para solução do que quer que seja. Ocorre que a lamentação já é uma característica intrínseca das pessoas, que fazem dela um anestésico para o espírito, bem como uma forma de marketing pessoal, vendo os ouvintes como potenciais compradores de suas atribulações, como se esses ouvintes pudessem se compadecer de nossa triste sina e pudessem compreender perfeitamente nosso fracasso, minimizando-o, ou pudesse enaltecer nossa vitória, maximizando-a. A lamentação não produz resultados práticos positivos. O tempo gasto nessa atividade pode ser melhor empregado em analisarmos os elementos negativos dos problemas e equacionarmos as reações que convergem para as soluções possíveis e desejadas.

Outra característica muito interessante de quem atravessa por dificuldades é a tendência do agrupamento, seguindo a máxima de que os semelhantes se atraem. Com o intuito de formarem uma sinergia, angariarem força e coragem, esse grupo mormente divide problemas e angústias, geram mais pessimismo, tentam confortarem-se e se afastam cada vez mais do objetivo construtivo inicial. E passam a ser elementos meramente contemplativos, aceitando e absorvendo os problemas como uma imposição do sistema, minando suas forças para a reversão dos fatos. Alguns grupos não raro assumem identidade própria e marcam época, como muitos movimentos de contestação e rebeldia, algumas procedentes e outras até mesmo oriundas do ócio. Cooptam pessoas que são vítimas das mesmas opressões, sofrem dos mesmos males ou simplesmente se agradam do modo como esses grupos vivem e manifestam suas reivindicações e seus ideais. Organizados e conduzidos por pessoas com alta capacidade de liderança, com poder de ditar regras e costumes, esses grupos criam identidade própria que muitas vezes extrapolam sua proposta inicial, que era agregar um número de pessoas com as mesmas aflições e caminharem para uma solução positiva comum. Viram referências históricas, musicais e tema de acaloradas discussões, onde se aborda o comportamento dos elementos do grupo e não se aborda o principal: os problemas geradores de determinada associação.

Se para alguns o agrupamento de pessoas é uma atitude discutível quanto à sua eficiência, existem também aqueles que preferem se isolar, pois acham que sua dor é algo muito particular, que não interessa a ninguém, que a solução está dentro de si próprio ou exclusivamente só ao seu alcance. Ao mesmo tempo que imagina-se livre das influências negativas e palpites infelizes, resguardado daqueles que não sentem suas dores e dizem que a vida é assim mesmo, que o melhor remédio é ter calma e outros tantos chavões, esquecem-se que também se distanciam das experiências semelhantes ao problema que enfrenta, dos resultados infrutíferos para não cometer os mesmos erros e das soluções sensatas e eficientes, para com elas aprender e refletir melhor nos passos que terá que dar.

Produtivo será se encararmos a vida como um jogo de xadrez. O objetivo é vencer, usando os elementos que estão à nossa disposição, guiados sempre pela clareza de raciocínio. O inimigo a vencer está lá, do outro lado, com o mesmo objetivo. Contamos com nossa força e o inimigo com nossa fraqueza. Cada problema ou solução deve ser encarado como um lance, bem ou mal dado, que com certeza terá reflexos. O mundo não está nem a favor nem contra cada um de nós. Simplesmente nós é que estamos no mundo. Para jogar. Para Vencer.

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